Enrosco

Meu dedinho acidentado na ciclovia de Santos ainda se ressente, ficou traumatizado com a violência do impacto. Depois do ocorrido foi que percebi o quanto uso a mão esquerda e o quanto este dedinho é útil. Ontem vi uma foto de uma pessoa que amo, percebi que ela está usando um anel neste dedinho da mão esquerda. Há muitos anos atrás uma ex amiga, milionária, me disse que era bom usar anel neste dedo, mantinha o dinheiro na mão da gente.

Nunca usei, mas percebo que alguns milionários têm este costume. Quase me quebraram o dedo no lugar das pernas. Voce já ouviu falar isto? De quando querem te deixar na miséria, dizem que vão “quebrar suas pernas”? Tem uma explicação antiga para esta frase, algo com judaísmo e cristianismo mas eu não me lembro direito então vou me calar. O silêncio nos salva de cada enrosco.

Uma vez assisti uma aula linda sobre os diferentes tipos de silêncio, tem aqueles densos e pesados que a gente parece que consegue cortar o ar com uma faca, tem um que é veículo de comunicação telepática, tem outro que é por indiferença, e mais outro que é por saudade. Quando a saudade aperta e a gente não sabe o que dizer, silenciar é a melhor coisa. O silêncio dentro da gente, aquele pacífico, é uma das melhores coisas que já senti nesta vida. A saudade raramente é pacífica, geralmente ela fica dialogando com a imagem que a gente carrega do outro. Tem diálogos que fazem tanto barulho que quando me dá nos nervos mando todo mundo parar de falar.

Trabalhar muito é bom para abafar diálogos intermináveis, mas nem sempre funciona. Voce já percebeu que quando escurece parece que aquilo que estava “esquecido” brota como uma mina d’ água por todos os teus poros, querendo falar? Dores gostam de doer de noite, inclusive as de amor.

Gosto destas dores de amor porque elas não tem hora e nem lugar, mas ocupam um espaço enorme. Acho que a gente sofre de amor porque é um jeito de manter o ser amado perto, até ele poder ficar longe , cada vez mais longe e deixar de ser amado.

Gosto demais destas transformações quase alquímicas. Eu não me importo de sofrer por amor mas me importo se alguém quiser “quebrar minhas pernas” e me deixar na miséria.

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Espelho

Tem gente que descansa bebendo com os amigos no bar. Tem gente que descansa fazendo sexo com o partner, tem gente que descansa comendo e tem gente que não descansa até ficar doente e ser obrigada a parar para descansar. Eu? Descanso no meio do nada com coisa nenhuma, de preferência sozinha. O som do mar e o aroma do vento são os únicos que aguento em dias de exaustão. Não aguento as pessoas, geralmente elas falam.

Se elas cantassem ao invés de falar acho que eu conseguiria frequentà-las nestes momentos.

O mar está gelado mas fui molhar a bunda nele mesmo assim. Não tive coragem de molhar os cabelos como os dois irmãos que mergulham nas ondas perto daqui. Crianças são tão legais. As saudáveis nunca me cansam porque elas brincam na maior parte do tempo.

As doentes querem controlar a vida dos pais, é uma chatice enorme. Pessoas ocupadas de si mesmas nunca me aborrecem porque justamente estão ocupadas, fazendo alguma coisa e me deixando livre para eu fazer as minhas coisas. Considero fazer, o não fazer nada bem devagarinho, também.

São pouquíssimas pessoas que entendem isto. Eu nem explico mais. Estou sem guarda-sol e passei um bronzeador que não usei quando fui pra Salvador no ano passado. Deve estar com a validade vencida, mas a minha geração não tem o hábito de se importar com estas validades da Anvisa.

Estamos comendo quilos de agrotóxicos diariamente e tem gente que ainda acredita em data de validade. A geração Harry Potter adora ver uma embalagem. O dia que eles passarem privação também não irão mais se importar com isto. Tudo é uma questão de necessidade. Se for necessário para a sobrevivência a gente faz sopa de pedra e toma agradecendo por ter fogo e sal.

Estou bocejando. Estou relaxando. Fiquei pensando nos meus desejos de comer embutidos, pizza e batata frita. Adivinhe quem amava estas coisas ? Meu pai. Percebi que quando este desejo aparece é porque estou com saudade dele. Ele passou muita privação nesta vida. Inclusive emocional. E em nenhum momento deixou de amar a família que construiu.

A praia está enchendo de gente feia. Sim, eu não vejo beleza em tudo. Tem gente que é feia, que é grossa, que é sem educação, que é brega. Colocar música alta na praia é uma chatice porque você obriga a quem está do lado ouvir a sua playlist. Gosto musical é como escova de dentes cada um tem a sua.

Já pensou se eu começo a ouvir as músicas sacras em russo que costumo ouvir, na praia ?

Ninguém iria suportar! Talvez seja um bom método de espantar os feios de plantão. Narciso acha feio o que não é espelho, disse o poeta, e eu não tenho o menor problema em ser Narciso. Adoro tudo o que me serve de espelho, sem culpa !

O “Pai Nosso e a Ave Maria” em russo é uma preciosidade. Choro toda vez que ouço. É pura ternura. A ternura sempre me serve de espelho.

A maré está subindo e estou sendo obrigada a colocar minha cadeira e bike para cima, cada vez mais perto do pessoal que veio ver o mar hoje também. Acho que vou sair daqui e buscar um outro canto sem gente, ou pelo menos, sem música feia. Tá gostoso ficar só por isto não vou embora.

Amém

Tô moída. Pedalei o dobro em menos de 24 horas. Isto significa 56 km. Dormi pouco porque ontem fui pra cama muito tarde e levantei antes do sol raiar. Hoje trabalhei um pouco mas quando o relógio mostrou 14:30 eu estava bem sonolenta e voltei dormindo em pé na bike. Adoro chegar em casa.

Voltei a tomar a sopa do chinês nestes dias de muito frio, resolvi voltar á dieta da banana com ovo cozido e deixar o glúten para quando eu perder mais 10kg. Acho que pedalando 28 kg praticamente todos os dias fica bem mais fácil chegar onde quero. Só não posso cair em tentação e comer pão, batata frita, pizza e hot dog.

Parei no supermercado antes de chegar em casa. Tinha pego todos os ingredientes para fazer hot dog com batata palha, aí repensei e devolvi tudo nas prateleiras. Comprei o quê? Banana e ovos ! Tira a fome e emagrece. É ótimo.

Desculpe-me pelo texto besta mas estou sem assunto de tão cansada. Além do que eu não posso contar o que me fez sorrir e sonhar hoje. Segredos. Você já ouviu a música “Esotérico” com o Gil e o Caetano ? Ou com os Doces Bárbaros ? Eu queria abandonar uma história mas a história não deixa. Não sei mais o que dizer ou fazer. Deixei nas mãos de Deus para que Ele faça valer a Sua vontade.

Apelido

Lua cheia veio me acompanhando o trajeto todo enquanto eu pedalava. Na travessia ela dançou e ao chegar em casa me abraçou. Você já pensou que a mesma lua é vista por todas as pessoas em todos os continentes ? É lua cheia no mundo todo e isto é lindo!

Quando eu estou sofrendo muito eu penso nisto e me alegro. Eu sofri demais por ter que sair da Itália e voltar para o Brasil, nesta ocasião eu pensava em tudo o que me unia aos meus amigos italianos. O céu, o sol, a lua e o mar. Passava horas olhando o sol tentando aquecer minha alma que nem estava no meu corpo. Tinha ficado na Itália. Foi muito difícil aceitar o retorno ao Brasil.

Trabalhar muito em lugar animado e amistoso me lembra muito da alma que deixei em Firenze. Sim, estou trabalhando em um lugar assim. Pensa que hoje nem era o meu plantão, e eu fui ficar lá trabalhando de tanto que estou gostando.

Me sinto bem vinda e isto é bom. Tem uma brincadeira rolando comigo e um gerente de outra equipe, que eu estou dando corda porque estou considerando este jeito de me introduzir no grupo, um modo afável e simpático de me dar boas vindas! Gosto demais do meu apelido. Você acredita que passei 2 dias no site de numerologia da Aparecida Liberato escolhendo um nome que tivesse o número que preciso desenvolver nesta encarnação ? Escolhi mais de 20 nomes lá na busca gratuita que o site oferece. E somente este é que ninguém da empresa toda tinha escolhido ainda.

A primeira vez que eu entrei neste site, eu fiquei horas na parte dos cálculos gratuitos. Tem cálculo para tudo. E quando terminei minha auto análise, escrevi um e-mail para ela agradecendo pela sua generosidade em dar gratuitamente para o público algo tão valioso. Aí no meu aniversário daquele ano pedi de presente de aniversário uma consulta presencial com ela. Eu precisava conhecer esta pessoa que tinha a generosidade como marca. Conheci a generosidade em pessoa. Eu amo a numerologia mais do que a astrologia.

Pensa que minha gerente e meus colegas me viram buscando por um nome que tivesse na sua soma de dígitos um determinado número. E quando foram me apresentar para os outros colegas, o grupo é grande, me apresentaram como se eu fosse numeróloga. Achei muita graça nisto, e nem tentei explicar. Aceitei e me calei.

Ultimamente tenho feito isto, aceito o jeito que cada um me vê e deixo que aquilo seja verdade naquele momento. Não preciso mais ser reconhecida em nenhum âmbito da minha existência. Engraçado como a gente muda ao longo do tempo. Talvez esta história de apelido para trabalhar on-line tenha me ajudado a ser outra pessoa. Eu não sei. Mas estou bem diferente do que sempre fui e estou adorando este novo modo de ver o mundo e me relacionar com as pessoas. É libertador não precisar do olhar do outro e da aprovação do outro para existir. Não levanto bandeira de nada. Não entro em discussão. Não me posiciono. Se gosto sorrio e se não gosto me retiro. Simples assim. Tenho foco e sou implacável neste objetivo. Cada dia que passa me aproximo um pouco mais dele. Sou determinada mas não perco a doçura e nem a alegria. Estas são as minhas marcas. Cada um tem a sua.

Amendoim

Comprei 100grs de amendoim e estava comendo no bus de volta pra casa neste dia gelado e chuvoso, quando um rapaz na minha diagonal pergunta as horas, para o homem que estava atrás de mim. Sobrou metade do saquinho de amendoim, ofereci para o rapaz as 50grs e ele disse que não queria, agradeceu. Guardei-o na mochila. Falei que estava frio e que era bom comer alguma coisinha, ele sorriu e pude ver que usava aparelho nos dentes.

Geralmente quem usa este tipo de correção dentária passa fome para não sujar o aparelho. Para minha surpresa, ele me estendeu a mão e disse que aceitava um pouquinho do amendoim, eu falei que não precisava ter vergonha, e dei o saquinho todo para ele.

Mais uma vez ele perguntou as horas para o homem, que já estava se irritando, em ter que responder de 10 em 10 minutos, como se fosse um cuco.

Puxei assunto depois que ele comeu e jogou o saquinho no lixo, sem eu precisar pedir. E fiquei sabendo que ele estava aflito para chegar logo em casa porque queria assistir a novela. Tinha 14 anos. Morava na favela e tinha nome de um rei de coração de leão.

Não sei como eu sei quando alguém está com fome ou sede, ao meu lado, mas eu pressinto. Dói em mim. Minha antena parabólica interna apita.

Quando alguém passa muita sede ela começa a lamber os lábios e geralmente estes ficam assados. Fico pensando na Marina e suas performances de longa duração sem tomar uma gota de água. Quando a conheci percebi que ela se esquecia de tomar água de tão envolvida que ficava com as atividades no SESC. Claro, que quando eu a via sugar os lábios, eu levantava para pegar água para ela, que sempre aceitava e bebia imediatamente. Agradecia com verdade. Necessidades quando saciadas são verdadeiras na sua expressão de gratidão. Os desejos, não. São diferentes.

Quando a gente passa muita privação a gente se esquece de pedir e de querer. Por isto gostei demais do rapaz quando ele esticou a mão e pediu com muita meiguice pelo amendoim. Ele não chegou a passar privação severa e isto me trouxe um certo alívio. Nos despedimos pelo nome. Tomara que ele tenha conseguido chegar a tempo de assistir sua novela.

Mímica

Que raiva ! O texto quase pronto desapareceu do editor do blog. Imagine você que se eu me esqueço de colocar o celular no modo avião eu corro o risco de perder o texto. Sim, o blog não combina com wi-fi e nem com pacote de dados. Estes engolem os textos quase prontos.

Eu me esqueci e mais uma vez perdi. Acho que existe um fenômeno dentro de mim que diz “pode escrever fora do modo avião, desta vez será diferente” e nunca é. Perco o texto toda vez. Preciso parar de ser crente.

Como eu descobri que no modo avião o texto permanece? Fazendo experiências e observando. É assim que consigo novos movimentos para necessidades antigas.

Estou achando legal trabalhar pelo WhatsApp, nunca imaginei que meu estágio de recepcionista de hostel pudesse ser tão útil como está sendo, nesta empreitada de corretora de imóveis. Aprendi na recepção a trabalhar com o WhatsApp Web, uma coisa que eu nem sabia que existia. Lá também a gente assobiava e chupava cana na frente do computador, era e-mail, WhatsApp, telefone, maquininha de cartão, cuidar do dinheiro no caixa e a entrega da rouparia para o cliente. Aqui ainda é mais fácil, mas preciso me aperfeiçoar e fazer do meu atendimento algo memorável.

Estou adorando trabalhar também com imóveis populares porque é uma oportunidade de ajudar as pessoas a terem sua primeira casa. Acho que o Facebook e o Instagram vasculham meu WhatsApp, porque desde comecei, só me aparece anúncio de imóveis nestes canais. Passei a apagar as conversas íntimas.

Não é da conta de ninguém minha vida, muito menos das redes sociais. O problema é que antes aparecia um monte de editais de arte de performance e agora não vem nenhum. Sim, eu continuo sendo o que sou, artista de performance. Esta é a minha essência, ainda que não me sustente e nem me dê dinheiro, é isto o que sempre serei. Somente uma artista de performance pedala horas diariamente para ir e voltar do trabalho, cantando e conversando com todo mundo. Inclusive com o assaltante, até ser roubada.

No dia da neblina tinha uma menininha de 6 anos na garupa da bike do pai, dormindo em pé e eu resolvi puxar assunto com ela para ajudá-la a acordar, e tudo o que eu perguntava ela respondia gesticulando, como se fosse uma mímica. Uma graça.

Claro que eu ria a cada resposta dada com a criatividade dela, me disse seu nome e em seguida perguntou meu signo, foi assim que ouvi a voz da preta dos olhos de jabuticaba mais bonita da multidão. Ela era de peixes e adorou saber que minha amiga também era e que pessoas de peixes são muito inteligentes e muito estudiosas. Sim, ela iria para escola em período integral, e só depois que o pai saísse do trabalho iria buscá-la de bike para eles voltarem para casa no Guarujá.

Tem gente que se queixa da rotina e tem gente que tem uma rotina tão dura e ainda assim continua sorrindo e brincando com uma curiosa na fila da balsa. Quando uma criança pergunta seu signo, sem nem saber seu nome, ela está tentando fazer amizade dizendo que gostou de você. Isto chama-se magia.

Livro

O imponderável aconteceu logo cedo quando o nevoeiro fechou a passagem da balsa para o continente. Me senti em Avalon. Lindo romance em 5 livros. Ou serão 4 ? Não me lembro agora. Você não conhece ? Ah, procure em algum sebo e leia, é fascinante. Não dá para parar de ler. A história do rei Arthur, um rei cristão contada pela última geração de “bruxas” alquimistas. Uma era irmã dele. A feiosa Morgana. Me lembro detalhes deste romance. O namoro dos dois irmãos na festa pagã é uma das cenas mais contundentes dos primeiros volumes.

Minha avó, minha mãe e eu revezávamos os volumes, a primeira a ler era a vovó, que depois passava pra mim. Minha mãe era mais anárquica e lia o que estava disponível, sim, tudo fora da ordem. Isto acontecia quando estávamos de férias na casa de Ubatuba, no Prumirim e deitadas cada uma na sua rede, sem vontade de levantar para tomar água. Vez ou outra a gente parava para comentar sobre o ocorrido de um capítulo. Fizemos assim com o “A morte, e a morte de Quincas berro d’água” do Jorge Amado e com “A incrível e triste história de Cândida Erendira e sua avó desalmada” do Gabriel Garcia Marquez. Os dois têm capítulos tão engraçados que quando a gente comentava uma com a outra a gente gritava de tanto gargalhar. Às vezes até o xixi escapava e a gente ria mais ainda. Não tinha Tv. A diversão era jogar baralho e ler. Minha avó roubava no jogo e isto me irritava muito (enquanto ela se esbaldava de tanto rir) então eu evitava jogar com ela. Preferia rir com ela dos livros.

Adoro rir. A vida fica mais leve e possível de ser vivida. Pensa que nesta época, eu lia todas as noites algum Astérix, antes de dormir e me divertia demais com as histórias que eles se enfiavam. Gargalhava alto. Tenho a coleção toda até hoje. Humor sem baixaria e sem palavrão, mas com inteligência e conhecimento me agrada demais. Humor e crítica andam juntos.

Poder criticar e fazer o mundo gargalhar é de um refinamento intelectual sem precedentes. Precisa saber história geral para entender os quadrinhos do Asterix. Será que o Google explica isto também ? Só faltava isto.

Consegui chegar pontualmente no trabalho porque sou previdente e geralmente saio com tempo para os imprevistos ocorrerem, se isto se fizer necessário. Adoro a pontualidade.

Foto do dia 12 de agosto 2019 com os ciclistas trabalhadores impedidos de atravessar para Santos, por conta do nevoeiro. Mais de 1000 pessoas.