Tá?

È encantador o lugar de honra que as crianças me atribuem na vida delas. Quando alguém faz questão de te contar, no tempo presente, vulgo aqui e agora, o que ela está fazendo e para onde ela está indo, tenha certeza que este lugar te pertence.

Infelizmente a burrice dos adultos não alcança o sagrado desta experiência de se partilhar o presente e contar as intenções futuras. Toda burrice é insegura. Neste caso os adultos se sentem ameaçados nas suas liberdades e acreditam que o outro os está controlando a vida dele. A burrice desconhece o prazer que é ter alguém que sabe onde estamos indo e o prazer que é ter alguém nos esperando voltar.

Eu me emociono profundamente cada vez que uma criança me surpreende no meio do meu caminho para me contar o que está fazendo e para onde ela está indo. Me sinto a pessoa mais importante do mundo inteiro.

Eu estava indo levar o lixo na lixeira do condomínio, de biquíni, canga e carregando o “macarrão de piscina” debaixo do braço. Passei em frente da casa das crianças que me prezam, estava quase fazendo a curva quando ouço uma vozinha linda de menino feliz me chamando da sacada da casa dele, que me fez olhar para traz:

Ele: Marília,(dito em tom de ternura) eu tô indo para a escola, tá? Eu: Você estuda a tarde! Querido, boa aula, tá? Ele: Tááá!

Entendeu que não precisa falar “bom dia, como você está?” Inclusive porque você nem vai se interessar em ouvir a resposta? Entendeu que é delicioso ser acompanhado? Entendeu que “Vamos” à escola juntos? E na volta, eu estarei esperando por ele?

Antes de entrar na piscina, fui tomar um chuveirão. Este fica bem em frente à sacada da casa da menininha que me considera importante e lá de dentro do quarto do pai dela, ouço uma vozinha de menina feliz:

Ela: Oiiii Eu: Oiii, onde você está? Eu não estou te vendo? Ela: estou aqui, e acabei de sair da piscina. A gente ficou na piscina até agora. Eu: Ah, agora eu te vi, você está deitada na cama do seu pai! Que gostoso! Ela: Agora eu vou pra escola! Eu: Eu não consegui vir mais cedo na piscina porque eu estava trabalhando. Ela: Tá! Eu: Até mais tarde, Ciao! Ela Ciaaaao! Acenando com as mãozinhas, em pé na sacada.

Entendeu que é simples? Entendeu que existe prazer em se contar o que se fez e o que se fará e existe prazer em se saber o que a pessoa, que a gente preza fez e fará? Entendeu que ninguém está vasculhando a vida de ninguém mas se está compartilhando os afazeres do dia na esperança de que em algum dia conseguiremos estar no mesmo lugar e na mesma hora? Entendeu que fazer junto alguma coisa cria espaço de intimidade? Por que? Porque se cria história e memória. E para que isto serve? Para que nos momentos mais difíceis da vida, aqueles mais delicados, nos quais acreditamos que vamos morrer, a gente possa fechar os olhos e se recordar de um encontro feliz e verdadeiro. E isto nos salva!

Ter o dom de atualizar as alegrias vividas durante a vida, abastece nossas baterias. Criança saudável não é dissimulada, não é manipuladora e nem teatral. Por que? Ela sabe que o tempo dela vale ouro e deve ser ocupado apenas com quem lhe faz sorrir. Não tem tempo de mentir, entendeu?

Detalhe: A piscina fica no meio do condomínio, onde todas as janelas balcão se abrem nas suas respectivas sacadas. Com isto todo mundo que estiver nas janelas ou perto delas, ouve também, e participa também da nossa vida. Nossa? Minha e das crianças.

Eu choro de emoção por estar neste lugar sagrado no coração dos meus pequeninos e queridos. Valeu ter sobrevivido à burrice de muitos. Valeu ter chegado até aqui com a sensibilidade viva e intacta.

Conversar e se comunicar é raro. A burrice dos adultos se limita a interpretar e julgar sem interagir. Sem se entregar. A Verdade é filha do Aqui e Agora.

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