Cura

Já imaginou se você pudesse tocar sua ferida? A mais profunda de todas? Tocar e reorganizá-la com seu toque e calor natural das mãos, a ponto do machucado deixar de existir, e o seu ser curado preponderar?

Helena me fez tocar a escultura de um grande sofrimento e me mostrou bolhas dentro dela, me falou coisas incríveis enquanto eu tentava restaurá-la, e me ensinou novos movimentos para eu conseguir curar a vitalidade ameaçada. Juro, eu não saberia detectar e menos ainda consertar os buracos que surgiram. Aprendi.

Isto mexeu tanto comigo que voltei para casa chorando. Eu não tenho o olhar dela mas adoro ouvir o que ele vê. Ela não tem o meu olhar, e ouve com muita atenção tudo o que ele, também, vê.

Hoje eu descobri um defeito nela que não irei comentar antes de nos falarmos pessoalmente . Não, eu não estava procurando, caiu no meu colo. Geralmente os defeitos das pessoas que eu amo, fazem isto, se jogam no meu colo. Eu os seguro.

Ela nem percebeu e eu também nem dei importância, mas notei. Meu olhar ouve inclusive o que eu não quero. Achei curioso o movimento de conseguir ver um defeito na Helena justo no dia em que eu estava fechando a ferida causada pela Carmen.

Falamos um monte da minha mãe e das feridas causadas por ela. O bom de poder falar e consertar os buracos deixados pelas feridas, nas esculturas de argila, é que não machucam mais como já machucaram. São doloridas apenas.

Perto da imensidão da obra toda, as pequenas rachaduras e bolhas nada representam. Claro que é um nada que precisa ser refeito e reabsorvido, mas é tão pouco. Juro. Sabe o que foi lindo? A voz da experiência da Helena me dizer: “Marília, se você continuar com o toque neste tom, a chance de novas rachaduras aparecerem é enorme. Procure por um toque bem delicado.” Eu o procurei em mim e o encontrei. Deu certo. Você entendeu que sozinha eu jamais conseguiria passar pelo processo de cura que passei hoje?

Ela chamou de Quíron, o curador ferido. Foram 135 minutos de sessão que mexeram profundamente comigo. Senti medo de descobrir coisas a meu respeito, durante este processo terapêutico, coisas que desconheço, enquanto eu dirigia no trânsito de São Paulo.

Ela tem medo de me amar e sair do lugar de terapeuta. Eu não tenho medo de amá-la. Eu não a deixaria sair do lugar dela. Eu preciso dela neste lugar e com este prisma singular adotado por ela. É uma questão vital.

È incrível ter uma terapia absolutamente imprevisível para alguém controladora e conhecedora de técnicas como eu sou.

Ela testa meu amor por ela e eu deixo. Consinto.Observo. Pontuo em voz alta. Brinco e a faço rir. Acho que isto nos une. Kiron. O curador ferido diz respeito ao Amor.

A gente não sabe ser Amado.

E isto vale para você também que parou para ler este texto. Todo mundo quer ser Amado mas ninguém sabe ao certo o que isto significa e como ocupar este lugar ofertado. Evoluiremos enquanto qualidade humana quando descobrirmos e aceitarmos receber Amor.

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