Corrida

Ontem as crianças do condomínio me convidaram para andar de bike com elas, nos 15 minutos que tinham antes de ir para a escola. Se você já teve apenas 15 minutos para fazer o que mais gosta ao lado de quem te valoriza, sabe a honra deste convite irrecusável.

Eu tinha acabado de chegar em casa, e pedi por um tempo para fazer um xixi e tomar uma água, eles deram. Aproveitei e tirei o lixo da casa toda e troquei de roupa, eles começaram a se agitar na minha porta, então fui na sacada e disse que já estava saindo.

Saí. Eu, a bike e o lixo que deixei nas lixeiras da portaria. Foi uma delícia vê-los pedalando e felizes por estarem ganhando de mim. Pensa que uma estava com o joelho ralado, e mesmo assim pedalava, o pequeno de 2 anos, corria a pé atrás das bikes, o menino com o braço quebrado também corria. E o vencedor, com cinco voltas na frente de todos também se destacou. Ele está maravilhado com a possibilidade de controlar a velocidade da bike. Potente.

Hoje. Assim que abri a porta de casa pela manhã para o sol entrar, encontro todos com suas bikes me olhando e me chamando para apostar corrida com eles. Gargalhei. Amei o convite e expliquei o porquê hoje eu não conseguiria. Explicações verdadeiras são curtas e de fácil compreensão.

Preciso lavar a rede e os cobertores das nossas sessões de cinema em casa.

Você já percebeu que o tempo é urgente para uma criança? E que este quando atendido na sua necessidade, é facilmente negociável, em seguida? Acho que este é o grande segredo de se estar na presença das crianças sem que elas ocupem espaço. Sem que elas atormentem.

Não entendeu? É simples, eles pararam aqui na frente eu ofereci água, aceitaram. Estavam sedentos. Um tentou entrar e se deitou no sofá, eu disse que só poderia oferecer água porque estava escrevendo, ele imediatamente se levantou e saiu sem ocupar um espaço que eu não poderia oferecer neste momento. Mas a sede foi saciada previamente, entendeu? O tempo que eu chamo da urgência é aquele que se refere às necessidades básicas. Uma criança com fome, com sede, com sono, com frio, sem colo e sem banho é de difícil negociação, está em aflição. Mal consegue ouvir.

Cada um tem seu copo na minha mesa, se eles quiserem mais água.

Eu sei que o que eles querem é me contar o que estão fazendo, uma vez que não posso participar. E sei também que eles contam com meu beijo e arnica quando se machucam. Esta é outra honra que as crianças oferecem aos adultos, cuidarem delas quando se machucam.

È normal se machucar mas não é normal ficar sem um abraço e um beijinho no machucado dizendo “vai passar”.

Tem pais que espancam seus filhos, isto é anormal. A vida nos machuca demais não precisamos de mais surras, mas precisamos de colo para superar os machucados que nos acontecem no meio do caminho. Arnica é fundamental também.

Por 20 anos fui psicoterapeuta de crianças e meu lugar era de dar-lhes suporte e encantamento para crescerem e se desenvolverem em direção à Luz. A gente sempre soube que dificilmente seus pais se modificariam para atendê-los em suas necessidades vitais. Dificilmente um adulto, que considera seu filho “o problema” abre mão de si mesmo em prol de alguém.

Criança é rápida, para detectar as limitações dos adultos que elas amam.

Minha sorte na nova casa é que tanto os pais quanto os filhos me prezam e me consideram amiga deles. Eles contam com minha sabedoria e conhecimento, como pessoas saudáveis costumam fazer.

Pais que enlouquecem seus filhos costumam me enxergar como uma inimiga. Talvez eu seja mesmo, do ponto de vista deles, afinal eu nunca, em tempo algum vou concordar com as atrocidades cometidas. Frente à atrocidade, não há o que se possa fazer, mas frente à criança que sobrevive à ela, é possível se criar realidades incríveis. Pessoas incríveis carregam e compartilham realidades assim.

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