Mala

Pensa que minha mala já veio com 13 kilos, quando dentro dela cabiam apenas 10kg. Usei todas as coisas que trouxe. Menos as meias e as camisetas. Dias agradáveis e quentes com vento leve. Ontem fez friozinho e choveu o tempo todo, ainda assim passeei de vestido, me cobrindo com um agasalho de lãzinha que adoro. Não usei meias.

Hoje o dia está quente e ensolarado, 24 graus, e no meu destino estará 13 graus, quando eu chegar. Isto significa que estou carregando na mão vários agasalhos, vestindo calça comprida, botas e meias. Morrendo de medo de ficar suando no aeroporto até o horário do meu embarque.

Tenho muito calor nos pés e nas mãos, e se este estiver insuportável decidi que vou ficar de havaianas no aeroporto até embarcar. Fechei a mala e elas ficaram para fora, me calçando.

Juro que não cabe mais nada nesta mala, e se eu tiver que abrí-la, antes de chegar no meu destino, não sei como irei fechá-la.

Ela está recheada de panelas de barro. Acho que terei que levá-la á bordo comigo. Mas juro que se eu puder despachá-la com um aviso de “frágil” ou coisa parecida, eu prefiro.

Tenho uma sacola cheia de agasalhos e umas havaianas para carregar. Não pesa nada, mas o problema é que sou distraída e tenho a tendência de esquecer as coisas no meio do caminho.

Anos atrás em Paris, esqueci no aeroporto, um canudo com 20 gravuras dos museus por onde passeei, as quais até hoje não me saem da mente. Uma pena! Comprei e não levei.

A vida é cheia de gracinhas assim. E tem gente quase morrendo de tanto trabalhar para ter dinheiro e estabilidade financeira, sem nem imaginar as gracinhas que a vida faz.

Por isto eu acho que a gente tem que trabalhar por amor e não por dinheiro. Quando a gente trabalha por dinheiro, ele acaba logo, é escasso, nunca é o suficiente. Mas quando a gente trabalha por amor, sentindo uma espécie de satisfação e prazer, o dinheiro parece que se multiplica, e é suficiente. Talvez não sobre dinheiro, mas ele é o necessário para se fazer tudo o que se almeja.

Claro que os sonhos mudam com a idade, e o dinheiro que se ganha e se gasta também.

Nunca imaginei que uma viagem fosse me fazer tão bem quanto esta. Fiz transformações profundas no meu ser. Fazer panelas de barro mexeu demais comigo em cada etapa do processo, durante 4 dias consecutivos.

Carregar panelas de barro, você não sabe e nem imagina, mas é coisa da minha mãe. É impossível eu não me lembrar dela, até no jeito de arrumá-las na mala. Minha mãe era apaixonada por panelas, peneiras, caçuás e cestas. Uma vez passamos 3 meses em Natal no Rio Grande do Norte, com os adotivos ainda bebês, sim, eles aprenderam a sentar e a engatinhar, lá. Três meses para um bebê é uma vida. Fomos e voltamos de avião. Eu tinha 13 anos e minha mãe trouxe o peso de 5 bebês em panelas de barro e de pedra, peneiras, cestas e caçuás, despachados no avião.

Ainda bem. Afinal, eu, minha irmã e minha avó, só tínhamos dois braços, e estes eram para carregar os cinco bebês. Você me acha louca? É que você não conheceu minha mãe. Somos loucas e ainda gargalhamos cada vez que lembramos e contamos a mesma história. Humor é fundamental nesta vida cheia de surpresas.

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