Pazes

Não sei se foi na quinta-feira, mas eu me neguei a abrir a porta da minha casa para as crianças vizinhas, no final do dia, como venho fazendo. Nem falar eu queria. Deitei na rede, assistindo um filme e comendo gelatina de laranja e os deixei na janela, me olhando e reclamando:

– Eu não acredito, ela está comendo gelatina e nem ofereceu para a gente!?

– Eu adoro gelatina de laranja, ela não pode fazer isto. Vou falar para o meu pai se mudar daqui. Ela nunca mais vai me ver!

Foi um rebuliço. Eles ficaram chateados comigo, mas eu não estava querendo receber ninguém, além de mim mesma. Na sexta feira vieram pedir para entrar e eu disse “Não”. No sábado de novo, outro “Não”. Hoje fui pedalar até a USP e na volta os encontrei andando de bike dentro do condomínio e querendo apostar corrida comigo. Eu parei para conversar mas não aceitei o convite.

Ontem os vi na piscina, acenei de longe. Hoje estavam resfriados. E o mais engraçado é que eles vem me contar esperando que eu os medique. Eu até sei e tenho o remédio de homeopatia para cortar o resfriado deles, e avisei os pais deles, que se quiserem, é só pedir.

Depois de almoçar fui colocar minha panela de barro para secar no sol, exatamente como aprendi com as paneleiras e me sentei do lado de fora da casa, de modo que pude facilitar algumas brincadeiras e só os deixei entrar na porta de casa para tomarem água. Estavam com sede, e fizeram dois amigos novos. Eu gosto muito deles. E a recíproca é verdadeira. Mas acho bom eles carregarem o bem estar que sentem na minha casa, para a casa deles e para a vida deles.

Eu sei que eles descansam aqui, mas será bem interessante se conseguirem descansar na casa deles.

Ainda bem que não se mudaram e voltaram a falar comigo. A mãe de um deles veio me trazer um delicioso pedaço de bolo de côco molhadinho. O filho dela disse que nunca mais viria na minha casa. E hoje estava aqui tomando água.

Gosto demais de ver a quantidade de amor que tem no coração destas crianças. A gente só esquece e perdoa uma “injustiça” quando tem muito amor no coração por quem nos ofendeu ou feriu. Fazer as pazes de verdade, sem ficar carregando mágoas anteriores, é para quem tem coração.

Eu nunca imaginei que eles adoravam gelatina e menos ainda que minha recusa em abrir a porta para recebê-los pudesse causar tanto alvoroço. Claro que eu gargalhei uns 3 dias com a história da gelatina. Porque a menina que a desejava na janela de casa é a que menos come, é a que mais escolhe o que comer e detesta novidades.

A gente tinha um combinado de que quando a porta estivesse aberta, eles poderiam entrar. A porta está fechada e vai ficar assim por um bom tempo. Eles arriscaram me chamar na sacada para pedir para entrar e eu disse “Não”.

A mesma verdade que abre a porta, os cobre na rede, assiste filmes, cozinha para eles e os ensina a manusear facas é esta que se recolhe e fecha portas.

Quando é de verdade, fazer as pazes fica fácil.

Deixe um comentário