Diz o aplicativo Clima tempo que amanhã teremos 6 graus á noite em São Paulo. Decididamente vou dormir na cozinha e com o forno acesso.
Venta gelado, mesmo com todas as portas e janelas fechadas. Pareço um casulo deitada, cubro a cabeça com uma manta e o corpo com 4 cobertores. Não me lembrava do frio desta cidade. Intenso. Eu prefiro o frio do que o calor, deveria estar feliz, mas o exagero me incomoda sempre.
Não consigo relaxar e para trabalhar sentada, durante o dia, tenho que deixar a porta aberta de casa e sentar com as costas no sol. É o único jeito.
Não preciso dizer que as crianças estão adorando me ver com a porta aberta e vêm aqui em casa me contar suas histórias, e eu também estou adorando vê-las.
Cheguei na hora do almoço, e assim que elas viram o carro entrar no condomínio, vieram correndo na minha direção, juro, gritando: “A Marília chegou” repetidas vezes.
Achei bonito. 4 crianças pulando e gritando porque eu tinha chegado em casa. Dei um beijo em cada uma e pedi que ficassem longe do carro enquanto eu fosse estacionar. Morro de medo de atropelar uma delas ao dar a ré. Parecem pipocas na panela de tão alegres.
Eles driblam bem o frio. Três meninos e uma menina. Adivinha quem é mais terrível? A menina. A líder. A criativa. Adivinha quem é mais obediente? Ela também. Não preciso repetir nada, ela obedece na primeira vez que ouve o meu pedido. Isto me encanta. Tem um dos meninos que beira a chatice e eu perco a paciência com ele, porque ele fica insistindo no motivo contrário ao meu pedido. Eu detesto gente insistente quando já decidi a escolha. Não é não, mas ele não ouve não. Futuro gerente de banco. A sorte dele é que o amor que o habita é tão grande que eu me derreto com suas histórias.
A menina não tem o coração generoso deste menino. Ele é naturalmente bondoso, muito observador e detalhista. Não dá para brigar com um menino inteligente e amoroso. Gosto demais de ouvir as histórias deles. A moda que inventaram agora é que são os entregadores das comidinhas aqui dentro do condomínio, chegam a brigar entre eles para ver quem vai entregar o quê e para quem. Eles querem ajudar de alguma forma, outro dia queriam lavar minha louça, eu não deixei, mas agradeci muito.
Criança saudável quer participar, quer ajudar. Eu deixo, dentro dos limites. A entrega das comidinhas de hoje foi feita com eles, assim, a menina carregou a sacola até metade do caminho e o menino a outra metade, idéia do cliente que ao receber o áudio ouviu a discussão dos dois para ver quem iria carregar a sacola.
Eu ri, ouvindo os dois entregando a comida congelada, gritando pelo cliente: ” A encomenda chegou! Tem alguém em casa?”
Costumo medir a temperatura deles pegando nas orelhas e no nariz de cada um. Hoje eles estavam bem mais quentes que o meu nariz e as minhas orelhas. Assei quiches de damasco com queijo gorgonzola e ficaram lindas. Acho que o segredo é deixar o forno morno antes de colocar as quiches.
Descobri isto por acaso. O frio me levou a deixar o forno sempre aquecido e deu certo com o preparo da quiche, poderia ter dado muito errado. Adoro fazer experiências com variáveis controláveis.

