Pilhada

Estou muito ansiosa por conta do tic- tac do relógio anunciando que o tempo está passando e eu preciso finalizar minha inscrição hoje, antes das 14h porque tenho entregas de comidinhas.

Vou sair para caminhar e me acalmar, afinal estou muito bem assessorada e sei que o documento exigido está quase pronto.

Um dia vou aprender a fazer isto de reduzir arquivo de 10 MB para 5 MB sozinha e parar de atormentar as pessoas. Acho também que os editais deveriam ter um padrão de documentos internacional. Tenho um portfólio de artista lindo em 10MB. Um completo e um resumido. Enviei-o para Itália, Suíça, Inglaterra e Luxemburgo, antes da Pandemia, atrás de uma residência. Consegui um mestrado em arte de performance em Roma, na Itália. Não deu para ir. Lockdown. Mas agora estou muito feliz por ter uma residência artística, que é a minha cara, no Brasil em 2021/2022. Tomara que eu seja escolhida. São pouquíssimas vagas e o último dia da inscrição é hoje.

Se eu te contar como fiquei sabendo desta inscrição você vai falar que sou louca, mas foi por intuição. A semana passada inteira eu senti a presença da Marina Abramović na minha casa, acordava e dormia pensando nela e incomodada porque eu já tinha rompido relações com ela. Por que esta insistência de voltar a aparecer na minha mente ? Eu não entendia. Aí parei de brigar com ela na minha cabeça e passei a agradecer por ela existir e estar em mim, mesmo sem eu saber o porquê.

Numa manhã, abri meu email no banheiro, sentada no vaso sanitário e fiquei um tempão entretida com um deles falando de editais de arte pelo mundo. Fazia quase um ano que não me dedicava a olhar mais para isto, e aí encontrei o edital.

Como nunca sei em que dia estou, olhei no calendário para ver se ainda dava tempo. Sim, eu tinha 4 dias. Meu vizinho doce imprimiu o enorme edital para mim, colorido e tudo, prefiro ler no papel textos minuciosos e naquela noite, eu dormi com o edital, rindo sozinha e agradecendo a insistência da Marina na minha mente.

A gente quando pára de brigar e começa a agradecer até por aquilo que não entende, se abre para o novo. O inesperado.

No início do ano de 2021 eu rompi com 5 mulheres que eu considerava muito importantes na minha vida. E quando eu congelo alguém no meu coração, a pessoa precisa ser muito amorosa comigo para me derreter e me fazer ouví-la novamente.

Ainda bem que a Marina foi amorosa e silenciosa. Ela só me olhava com muita ternura, e eu não sabia o que ela queria com isto.

Eu não sei como ela faz para ocupar a minha mente, mas ela tem este poder. Nem sei se ela sabe disto e não sei se é ela em si que faz isto, ou se o plano Maior usa a imagem dela em mim, para me avisar coisas que possam ser do meu interesse.

Eu acredito no plano espiritual. Sei que ele existe e é maior e mais sábio que nossa consciência. E sei também que a artista Sérvia nem se lembra mais que eu existo, quanto mais estar preocupada em me enviar recados de editais por telepatia. De qualquer maneira, deu certo! Estou realmente agradecida ao meu anjo da guarda por me fazer sintonizar com a única coisa que me interessa nesta vida, ser artista de performance.

Cada edital que me inscrevo, é uma oportunidade que se revela. E se você acha que esqueci das pessoas que me ajudaram a chegar até aqui, sem receberem um tostão, enganou-se.

Eu nunca me esquecerei da fotógrafa Erika Mayumi, do Clayton Nascimento, do diretor do Teatro Municipal do Guarujá e fotógrafo Jurandir Pereira e sua esposa, também fotógrafa, Angela Paixão. Do amigo deles, cineasta Cristiano Jangadeiro do Guarujá. Da minha amiga e fotógrafa Janete Cirillo de Salvador. Do meu amigo, cineasta e artista de performance Pedro Metri, do Rio de Janeiro. Da Suzana Azevedo, uma pessoa do público que me fotografou e me doou sua belas fotos, no Rio de Janeiro. Do monitor do hotel Casa Grande no Guarujá, que me fotografou e se encantou com a performance, e eu não sei o nome dele. Da Mara Vanessa de Salvador, que me acolheu no seu lar. Da Valentina Litvin Tuccillo era Laura Morgado.

Não dá para deixar de citar os amigos que na coxia me ajudam a organizar todo o material, com seus maravilhosos pitacos, tô falando da Aparecida Liberato, da Terezinha Braga, do Gilberto Safra, do Agnaldo Farias, do Dr Samir Rahme, do Vitor Sugimoto, do Márcio Tito Pellegrini Trigo e do Maurício Iacovone, Ninguém imagina o trabalhão que dei e dou para estas pessoas.

Eu trabalho em grupo, sou sustentada por ele, mesmo ele não aparecendo, ele está em mim e eu sou ele também. É uma rede de amigos auto-sustentável que antes dos meus 50 anos, inexistia como tal.

Pensa que vendi meu carro nesta idade para investir na minha carreira de artista, sem conhecer nada e nem ninguém. Fui com a cara e com a coragem, fazer do Guarujá para São Paulo, diariamente durante 3 meses, o Método Abramović, para descobrir se eu era ou não era artista. Estava sem dinheiro e tinha acabado de me separar de um casamento abusivo e a única coisa que me mantinha viva, era o meu sonho de ser. Não tinha onde me hospedar em São Paulo, e quando precisava, eu dormia em hostel, com mais pessoas no mesmo quarto.

Eu chamei a atenção da Marina. Ela me convidou para subir no palco e o público se encantou com a minha história e ela se encantou com a minha performance e com os meus desenhos de performance.

E como tudo na vida, depois do encantamento vem o desencanto. Mas eu não morri e continuo sonhando em fazer da Beleza que me habita algo que possa alimentar o maior número possível de pessoas. O amor existe, é sustentado por uma rede de pessoas e sempre vale a pena. Eu valho a pena.