Grega

Hoje é aniversário da Grega, que se estivesse viva completaria 58 anos. Morreu aos 34 anos de câncer nos ossos e deixou um filho lindo, inteligente e amoroso. Filha de pai Grego e mãe russa, minha amiga era linda, mas o filho dela sempre foi a minha cara.

Eu adorava dizer que ele era meu filho e que tinha doado ele para ela adotar. Ela ficava irada porque comia o pão que o diabo amassou para criar aquela criança como mãe solteira aos 17 anos de idade.

Mulher tão inteligente que trabalhava no ITA, em São José dos Campos, como física. Estudava raios e trovões. Amava meus pães e dizia que eles vinham com o meu perfume. Eu a amava, mas ela nunca acreditou.

Acho que ela não gostava de transar comigo, preferia a moça do exército que dirigia o carro dela até Mogi, e que ela chamava de amiga.

Quando uma pessoa que você ama, você releva e espera, e não acredita no seu amor por ela, não insista. Desista. Ela tem outra pessoa e não irá te contar para não te magoar.

Mas se for uma pessoa ordinária, irá transar com você e com a outra dependendo do estado de humor dela. Nunca se coloque neste lugar. Ficar à mercê da vontade alheia, é crime hediondo. Gera dependência e escravidão. Você ficará refém desta relação o resto de sua vida.

Minha grega tentou me deixar refém mas não conseguiu porque sou anàrquica demais e não me submeti ao jogo de poder quando me percebi no meio dele.

Chutei o pau da barraca. Briguei com ela e ela morreu sem eu conseguir me despedir, porque a família dela proibiu o meu acesso. Minhas 2 amigas de colégio em Mogi, que faleceram, estavam brigadas comigo. Fui no velório e no enterro apenas de uma.

A grega odiava este apelido e amava minha avó. Sim, ela dormia na minha casa e tomava café da manhã com minha adorável nonnina, que sempre tratou todo mundo muito bem.

Minha avó ensinava minhas amigas a comerem com etiqueta e elas achavam isto o máximo. O filho da grega aprendeu tudo o que minha avó ensinou e também lembra dela com muito carinho. Somos amigos de Facebook. Família de gênios. Mãe e filho geniais.

Minha avó nunca se importou se eu namorava com meninas ou meninos. Era inteligente e saudável e só se incomodava com quem me invejava e não me respeitava. Sim, ela me alertava. Mas eu continuava amiga de todo mundo. Até de quem ela dizia que não tinha educação e nem classe, gente casca grossa.

Imagine você que se alguém te chamasse de “anjo” “santa” ou “filha” no meio de uma frase, minha avó se arrepiava inteira e dizia que aquela pessoa vinha de origem muito simples. “Zé povinho.”

Não era bullying, era uma constatação apenas. Ela queria que eu me relacionasse com pessoas da minha classe social mas eu considerava todas as classes sociais como amigas.

Demorei meia década para entender que as diferenças existem e devem ser contempladas. Em que sentido? No sentido de que uma pessoa faz coisas ou deixa de fazer coisas educadas e dentro da etiqueta porque não tem educação. Sim, nunca ninguém ensinou para ela que não é assim que se fala ou é assim que se faz.

Isto é bom saber, porque a gente não se machuca com quem não sabe o que faz e o que fala. Ele não tem culpa, só não tem educação. Minha avó adorava justificar as atitudes das pessoas que me machucavam com esta frase.

Acabava dando certo porque eu relevava. Perdoava com facilidade.

Não sei se a Grega me perdoou antes de morrer, por eu ter me negado a conversar com ela quando a peguei no colo da outra. A preta do exército que ela amava. A congelei. Não tinha mais nada para falar e nem para ouvir.

È ruim ser intensa e focada em uma única pessoa quando se ama, mas mesmo sabendo da falta de correspondência neste quesito, eu só sei ser assim.

Se você morrer e a gente estiver sem se falar no WhatsApp, me perdoe. Eu não consigo ser menos do que eu sou. Quero namorar com você, não consigo ser sua amiga. Por isto preferi te bloquear. Preciso te esquecer.

Paixão é como fome, uma hora passa.