Na sexta-feira, antes de ir viajar ganhei panos de prato bordados á mão. Tão lindos que não tenho coragem de usar. Um deles está enfeitando o meu fogão. Quando cheguei no meu destino ganhei um lenço delicado com meu nome pintado. No domingo, voltei pra casa com dois potes grandes um de beringela e o outro de pimenta. Ambos conservas e caseiros.
Amo ganhar presente feito pelo Amor do coração das pessoas. Mas nunca recebi tanto presente junto, de diferentes pessoas em um único final de semana. Aniversário não conta.
Quem me conhece sabe que a única pimenta que eu como é a calabresa, vulgo peperoncino, em italiano. Agora como mais uma que não sei o nome, mas que é maravilhosa e não queima a minha boca porque meu primo amado a prepara de um jeito especial. Sim, ele cozinha muito bem também.
Tô com saudade do casal. Foi tão agradável e harmoniosa a nossa convivência que meu primo me perguntou se eu não queria ficar por lá até o ano acabar. Gargalhei porque faltam 6 meses para o ano acabar. Quero retribuir a hospitalidade carinhosa e receber o casal aqui nesta casa gelada.
Fiquei encantada com o calor da cidade. Na ida, durante as horas que dirigi, fui tirando a roupa, porque sai de São Paulo com frio e chuva, e um sol forte me encontrou no caminho. Meus ouvidos adoraram. O calor humano me fez muito bem também. Ser abraçada e beijada, confidenciar segredos, meter o pitaco, ser paparicada e elogiada, ao vivo e sem máscara foi sensacional.
Claro que como boa neta de italiano e neta de eslavos eu também presenteie com frutas, comidinhas, castanhas e tâmaras os meus anfitriões. Italianos e eslavos carregam alimentos por onde vão. Eu sou meus antepassados.
Temos os mesmos bisavós, eu e meu primo amado, e ele tem fotos deles quando nossas avós eram pequeninas. Em Nápoles. Com a família Define. Apaixonante ver fotos em 3D, no vidro, de 1916, 1917, 1918, com um tipo de binóculo. Meu primo guardou a parte da história da versão da minha bisavó e eu guardei a parte da história da versão do meu bisavô, o napolitano, médico especialista em doenças tropicais.
A gente se ressente da tragédia e se a gente pudesse reescrever e refazer a história dos nossos queridos bisavós, tenha certeza, que a gente faria. Talvez o simples fato de não se repetir o mesmo desfecho seja uma maneira saudável de se refazer esta história. O que sei é que a gente gosta tanto de prosear que nas duas últimas noites eu dormi bem tarde e levantei bem tarde também.
Eu gostei de dormir no hotel porque eu preciso de um tempo de recolhimento para dar conta de todo o prazer do encontro. O excesso de presença acho que estraga qualquer encontro. Do jeito que fizemos foi o ideal e ninguém se cansou de ninguém, muito pelo contrário, sentimos saudades uns dos outros e o casal pode manter sua rotina, intimidade e privacidade.
Voltei para minha casa, desarrumei as malas, coloquei a roupa suja pra lavar, guardei meus potes de conservas na geladeira, tomei banho, jantei e não vejo a hora do meu primo amado encontrar o que combinamos, para eu poder voltar para a casa dele e a gente poder celebrar. Da próxima vez, faremos churrasco e eu vou buscar minha prima na casa de repouso para passar o dia conosco também, desde que isto não lhe cause desconforto, mas lhe traga muita alegria. É tão bom quando gargalhamos todos juntos. É tão bom sermos parecidos uns com os outros.
A gente não sabe quando vai morrer e quem vai antes ou quem vai depois, mas eu sei que todos iremos carregados de boas e saborosas lembranças do tempo que passamos juntos.

