Entrei em um curso de arte online acreditando que o tema da minha produção seria revelado na medida que eu fosse fazendo construções no campo das artes. Achei isto tão inovador e bonito, fiquei envolvida e entusiasmada. Fazendo e fotografando o passo a passo proposto com muita alegria.
Me pediram para fazer pelo menos 15 obras ao mesmo tempo de diferentes materiais, acho que fiz 8, terminei alguns.
Aí, um belo dia o professor do curso vem com a pérola dizer que eu precisava de um tema para expressar minhas transparências. Meu mundo caiu. Escrevi para ele explicando o que eu havia entendido e que me motivava. E se eu poderia fazer do limite das cores um tema. Você me respondeu? Nem ele. Travei nesta história de tema. Achei pouco. Achei besta.
Posso pintar a janela da sala. Eu sei. Vale qualquer coisa como tema. Meu pé. A vela acesa. Qualquer coisa mesmo. Mas isto não tem graça, não tem entusiasmo. Eu não me animo a sair da cama para ficar olhando objetos e fazendo deles meu tema. E o pior, do mesmo jeito que todo mundo já faz e chama isto de arte contemporânea.
Misturam várias técnicas na mesma tela, colagem inclusive, borram tudo, distorcem tudo e lá no fundo aparece o objeto ou a sombra do objeto que um dia ele foi.
Tão óbvio. Tão previsível. Tão fácil de todos aplaudirem e dizerem que acharam maravilhoso. Mas é um blefe, entende? Não é verdadeiro. Não passou pelo coração do artista. É um modelinho de sucesso ridículo e racional.
Joguei dinheiro fora investindo neste curso? Não. Primeiro porque as aulas teóricas são boas. Reconheço uma boa aula e a valorizo sempre. Segundo que eu jamais passaria por esta experiência com esta reflexão se não fosse ele. Está valendo. Eu só preciso esquecer esta bobagem de tema que o professor pediu e voltar a fazer o que eu estava fazendo, e descobrir um tema no final, sem me preocupar em agradar ninguém. Foda-se se ele e o mundo dele reconhece o que eu faço, e que passa pelo meu coração, como arte.
Vivi 50 anos sendo banalizada como artista e isto foi maravilhoso porque aprendi a ser o que sou independente da platéia. Sim, desenvolvi uma resistência às expectativas alheias invejável. E quando fui reconhecida e abraçada foi por alguém que importava muito para mim. Nem ela importa mais. Não gosto de nada que me reduza e tente cercear minha liberdade de expressão.
Por que? Porque minhas obras não sou eu quem as realizo. Elas tem vida própria e são maiores que eu. Tão grandes que me surpreendem a cada instante e eu duvido que fui eu quem fiz, toda vez que as termino.
Acho que vou terminar esta vida sem saber o que sou, mas me divertindo muito com tudo o que faço, e ajudando um monte de gente a viver melhor com minha produção.
Não quero mais pertencer a grupo algum. Minha última tentativa foi a de pertencer ao grupo de artistas, desisti. Como disse o poeta, “narciso acha feio o que não é espelho”. Eu não sou espelho dos artistas da minha época. E não estou fazendo a menor questão de me adaptar as regras que não admiro. Não respeito aquilo que não admiro.
O professor perdeu todo o meu respeito no dia que mentiu dizendo que não estava acompanhando os trabalhos do grupo 3, dando uma desculpa idiota e se propondo a acompanhar a partir de então.
Falso e hipócrita como nossa sociedade. Teria sido muito mais verdadeiro se ele dissesse: Pessoal, os trabalhos de vocês são uma bosta. Rasguem tudo e comecem de novo! Sabe por que ele não faz isto? Porque precisa do dinheiro para viver. Precisa estar bem cotado nas pesquisas da internet. Precisa de seguidores no Instagram para ter sucesso e viver do próprio trabalho como artista, com conforto no século 21.
Ele está errado! Claro que não! Só não me serve de espelho. A arte é uma atividade que nos compromete por inteiro. Sim, é do buraco do cu até o último fio de cabelo que estamos envolvidos e comprometidos com aquilo que criamos, sabendo que apenas 5% dos artistas brasileiros conseguem sobreviver do próprio trabalho.
Por que a gente insiste? Porque este foi o único jeito que a gente encontrou de não morrer. Não tem nada a que ver com dinheiro e com seguidores do Instagram, é uma questão vital.
Por isto deveria ser tratada com verdade que passa pelo coração, como a veia aorta. Aliás este é um bom tema. O caminho da veia aorta no corpo humano. Sabia que ela passa pelos intestinos também? E é tão frágil que uma pancada certeira, nesta região, é morte súbita?
A vida é frágil e passageira e a gente fica criando tanta besteira para significá-la. . Vou pintar o caminho da veia aorta. Pronto.
Assim me agrado e talvez satisfaça os critérios do curso. Ninguém entra em um curso, pago e on-line, se não tem interesse em aprender algo novo. Eu posso não gostar e não concordar com a experiência proposta, mas ainda assim, eu passo por ela, tentando fazer de cada etapa um aprendizado. Não preciso de paixão para isto, mas preciso estar inteira. Este texto me serviu para me recompor do engano que cometi ao entrar nesta barca. Espero que não esteja furada, mas ainda que afunde, eu sei nadar muito bem e sou incansável.

