Textão

Por volta do meio dia de hoje minha câmera gravou a voz dos gêmeos de 4 anos, na minha porta assim: Oi Marília, como você está? Está tudo bem? Era o Samuel, ele gosta mais de mim do que o Joaquim. Quanta doçura comigo, me derreti inteira ao ouvir.

Ainda não peguei quem eu quero com está câmera, mas não existe crime perfeito e assim que eu pegar os bandidos invasores, vou me deliciar. Eu e meu primo Maurício já traçamos nossa estratégia. Aliás ele me fez gargalhar alto com esta cilada. Deixei de ficar brava e passei a me divertir com a bandidagem local desde então.

Considero estes furtos, mais uma tara do que qualquer outra coisa. Imagine você que levaram minha tesoura de cortar papel, uma das ” tomadas” de colocar filtro contra insetos, tinha várias, uma para cada ambiente … Fiquei com duas apenas e papel higiênico do banheiro. Juro. Só uma tarada faria isto. A frígida virou tarada.

Entende que não tem nada a ver com falta de dinheiro? A pessoa quer um souvenir da minha casa. Ela deve gozar quando olha a quantidade de souvenires que já retirou daqui.

Eu vou gozar muito também, e não tenho pressa. Sou um escorpião que adora ver o algoz bebendo do próprio veneno, nem que para isto seja necessário esperar 10, 20, 30 anos. Eu tenho tempo. Tenho humor e tenho primo.

O cara sabe tudo de T.I. é um gênio. Erramos em deixar no wi-fi nossas câmeras mas já consertei este erro. Sim, bandidos da atualidade derrubam o seu wi-fi e invadem sua casa com muita tranquilidade. Há que se ter outro tipo de provedor. Pense nisto e nunca deixe seu sistema de segurança vinculado á energia ou ao wi-fi.

Minha conta de luz de novembro veio 4 vezes mais cara do que a de outubro. Detalhe: Eu saio às 8h e volto às 18h. Não deixo nenhuma luz acesa. E, se você me acompanha sabe que fiquei 10 dias fora de casa em outro Estado. Como assim a conta de lua veio 4 vezes mais cara?

Não sei. Provavelmente a bandidagem local ao invadir minha casa derrubava a chave central de luz, e cada vez que se liga e religa, uma carga maior é despendida e com isto o valor também é outro. Juro. De 61 reais para 253 reais, é muita sacanagem.

Não estou com pressa, digo e repito. Nada como um dia após o outro. O fato é que meus perfumes, óleos e remédios os filhos duma puta não conseguiram mais furtar por falta de acesso. Mas a tara é maior que tudo e inventaram de furtar aquilo que encontram pelo caminho. Gente doente devia ficar no hospício. Sou super a favor da hospitalização. Louco prejudica sim a vida alheia. Inferniza. Sou contra o movimento anti manicomial. Quem inventou isto nunca foi importunado por um louco.

Ando de saco cheio de muitos movimentos que prejudicam as pessoas comuns. Pista só para ônibus e táxis é um absurdo, por exemplo. Quem tem carro é obrigado a passar o dobro de tempo no trânsito porque não pode pegar a pista exclusiva para ônibus? Vão se catar! Também sou trabalhadora. Também passo de 12 a 26 horas no trânsito trabalhando e não tenho que contemplar ninguém. Alguém me contempla?

Reciclar lixo é outro movimento ridículo. Sim, estou polêmica hoje. Mas páre para pensar. Quem inventou as embalagens? As fábricas, certo? Quem lucra horrores com os alimentos industrializados e embalados? Os fabricantes. Por que é que eu vou ter que trabalhar de graça para um filho duma puta de um fabricante que lucra horrores com suas embalagens? Ele tem que me pagar para eu separar o lixo para ele reciclar. Afinal ele recebe muito dinheiro para sujar o mundo. Ele que pague para limpar a sujeira que esparrama. Eu não vou ser voluntária de um explorador, de um industrial. Meu trabalho, assim como o dele custa. Quem inventou esta sacanagem de separar o lixo sem remuneração, provavelmente foi um industrial mais inteligente que a população comum e ainda convenceu os ativistas pelas causas planetárias que é bom trabalhar de graça.

Não é.

Fui voluntária minha vida toda e te digo que é o pior veneno que alguém pode te dar. Fazer de conta que você não precisa de dinheiro para viver é criminoso porque é te convencer de que você não é humana. É o que então? Uma anta? Um anjo? Uma fada? Um monstro? Sei lá. Eu prefiro ser humana.

Mais simples. Mais fácil. Mais prazeroso.

Viver dentro de limites e ter sonhos realizáveis é delicioso.

Tive um papo tão lindo sobre liberdade e arte com a Helena no último encontro. Gosto demais desta senhora, a tranquilidade inabalável dela ao me atender me traz paz. Olhando minha linda escultura de longe e de perto, de um lado e de outro, andando pela sala da Helena em diferentes ângulos, vi o corpo dela de costas para mim. Me debrucei sobre ele com um abraço delicado, quase encaixando minha cabeça no ombro dela e sussurrei no seu ouvido esquerdo: “muito obrigada!” E ela, sem se mexer e recebendo meu calor e minha energia naquele abraço disse: “De nada”.

Qualquer outra pessoa do meu mundo teria se mexido, menos ela. Adoro.

Ela brinca com a permanência, não do tempo, mas do espaço ocupado pelo próprio corpo. Quem ensinou isto para ela? Também não sei. Mas funciona. Ela faz comigo exatamente o que eu faço com as minhas crianças. Permaneço.

Amanhã vou lá na casa do Samuel ver como ele está e convidá-lo para desenhar aqui. Hoje cedinho fui na casa do Lorenzo levar meu presente de aniversário para festejar os 7 anos dele. Ele amou ter a própria bomba de encher pneu de bike. Coloquei em um saquinho de pano da sidewalk. Ficou charmoso como ele.

Saquinhos de pano têm memória afetiva para mim, porque a gente ia na roça, antes do meio dia e com o sol quente na cabeça, levar a marmita do pai das minhas amigas, no sítio onde eu morava aos 6 anos de idade, embrulhada em um saquinho de pano. Carregar marmita embrulhada no saquinho de pano é tão amoroso. Sabia que eu chamava o pai das minhas amigas de pai também? João Coelho era o nome dele, analfabeto, caipira de pé no chão, cheirava a cigarro de palha e tinha os olhos mais doces e verdes que vi nesta vida. Sabia plantar, fazer farinha, cuidar do gado e das galinhas. Andava armado com uma espingarda e teve 3 filhas. A Aparecida, a Helena e a Vera. Minha mãe fez o parto da Vera, de quem foi madrinha também. Homem bom que sabia acender o braseiro e colocar a água para ferver. Elegi bons pais e boas mães nesta vida. Gente de presença e quietude. Sabedoria.

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