A vida inteira usei franja até conhecer dona Antonina na igreja ortodoxa cristã russa e elegê-la como referência de Beleza..
Uma senhora de 94 anos, russa, mãe de 2 filhas de mais de 60 anos e avó de uma neta. Sustentou-se sendo esteticista, no Brasil. Ela dizia que só criança usava franja e que eu tinha que deixar meu cabelo crescer. Obedeci. Afinal eu queria ser vista como mulher e não como criança.
Hoje passei no cabeleireiro e obriguei o japonês cortar minha franja, mudei todo o corte que ele tinha feito com pontas para frente. Detesto este corte, mas acho que está na moda e os cabeleireiros só sabem fazer o que está já moda.
Ficou tão bom. Nunca mais vou deixar de usar franja. Muito mais bonito, mais prático e charmoso. É um rosto que me reconheço. O outro estava me dando desespero porque eu estava a cara da minha mãe. Agora estou a minha cara. Alívio.
As crianças estão felizes, brincando no pula pula da festa do Lorenzo. Eu amei a festa. Amei as soluções que a mãe do menino encontrou para servir as comidas e as bebidas. Comida sempre quente e sem dar trabalho para ninguém. Uma fartura de balas, pirulitos e bis para as crianças, batatinhas e amendoins para os cervejeiros. Brigadeiros. Beijinhos e bolo no final. Festa inesquecível de linda. Tomei uma cachaça ótima no final. Eu e o vizinho doce, ficamos horas conversando. Que homem bonito meu Deus.
Preciso arrumar uma namorada linda pra ele. Que ame as crianças, os gatos e os pais dele. E que me trate bem, afinal eu faço parte da família. Sou a vizinha.
Entrei na festa me apresentando assim “Oi, eu sou a vizinha”, comi tanto que não consegui comer bolo e docinhos no final. Eu adorei os sanduíches quentes. As crianças que me conhecem e me chamam de Marília, correram na minha direção para me abraçar. E quando queriam comer ou beber alguma coisa, vinham me pedir e eu fazia questão de serví-los. Inclusive o aniversariante, que ficou com o meu copo de refrigerante, sem perceber que era meu.
Amo servir as crianças e os idosos. Adoro ser convidada. Em março a festa será da menininha, em abril do menino com nome de apóstolo, preciso ver quando será a do gêmeos. Sim, convidei o Samuel, um dos gêmeos, para vir aqui amanhã desenhar. Ele ficou super feliz. Afinal tenho desenhos de todos nas minhas paredes, menos dele.
Todos gostamos de deixar nossas marcas por onde passamos. É um jeito de não sermos esquecidos. Faço questão de ter as marcas do Samuel nas minha paredes..
A escultura mais linda que fiz na vida pesa 5kg e tem como parede, sua base. Não sei o que isto significa, apesar de saber da grande capacidade de transformação que me habita. Fiz transformações estruturais no meu ser ao finalizar esta escultura. Foi tão difícil. Chorei agachada no chão copiosamente com a dor dela, mas consegui terminá-la. O que era base virou parede e ela ficou mais bonita e leve ainda.
Difícil foi acreditar que fui que que fiz. E foi. Absolutamente sozinha. Sem nenhum pitaco da Helena.
Depois desta escultura eu ganhei uma consistência mais sólida. Passei a escolher até quem eu atendo e quem eu não atendo. Agora, quero aproveitar a única note da semana que não trabalho e assistir um filme. Talvez eu durma no meio da história, melhor estar de banho tomado e perfumada para encontrar com Morfeu com meu novo, velho, visual.

