Lua

Ontem a lua cheia veio me abraçar na janela. Tão linda! A Beleza me salva quando estou desolada. O Amor que eu sinto pelas pessoas também me salva, mesmo elas não compreendendo do que estou falando.

Sabe, a gente não muda ninguém. A gente aprende o limite de cada um e se tiver amor suficiente para manter aquela relação, a sustenta, com todos as limitações possíveis e imagináveis. Mas se não tiver amor  suficiente, não há relacionamento que se mantenha em pé ao longo do tempo.

Frente á uma grande limitação da outra parte, cabe a nós decidir ficar, permanecer naquela relação, ou zarpar e amarrar o barco em outro ancoradouro. Decidir sem olhar para trás.

Eu chamo de amor. Tem gente que chama de recursos. Outros chamam de interesse . Enfim, cada um dentro do seu universo e das suas referências, coloca nome nos bois, como lhe convém.

Eu tenho navegado por mares revoltos de muitas tempestades e vendavais há muito tempo. Não sei se me tornei uma boa marinheira, como diz o ditado popular, mas sei que cansei. Tô exausta.

E o mais incrível é que apesar da exaustão evidente eu não deixei de cuidar um só instante do amor que sinto pelas pessoas. Depois que a festa acaba preciso te dizer que a única coisa que fica é o amor que sentimos por alguém.

Todo o resto não perdura, todo resto é movimento, é cíclico, é um alternar-se de recolhimento e expansão.

A cultura do desapego, enriquece muita gente.  A cultura da doação de  valores também. A pobreza movimenta milhões. É legal ser o grande doador. O grande anjo salvador, mas não é salutar. Se voce prestasse de verdade, ensinaria às pessoas que elas tem valor também, que não é só dinheiro que vale alguma coisa, e que elas podem doar-se a qualquer  momento, desde que queiram fazer isto.

Mas quem disse que quem vive de doação quer ter trabalho? Dá trabalho ajudar alguém, ser útil para alguém, ser necessário na vida de alguém. 

Pessoas adoecidas se acostumaram a receber sem perguntar  para o doador do que é que ele está precisando neste momento, e tentar oferecer também. E não  estou falando de sexo e nem de promiscuidade.

A vida é oferta porque tem alguém oferecendo e tem alguém recebendo. Mas se os dois lados não podem se alternar, ora um ora outro recebe, preciso te dizer que a doença  está instaurada e é grave. Cristalizou-se a cultura  da miséria.

Todo mundo precisa receber alguma coisa e não falo apenas de dinheiro. Falo de presença. De atenção. De tempo.

Ah, você não tem disponibilidade para doar-se para nada e para ninguém. Só quer mamar na vaca? Ok. Quem sou eu para te dizer alguma coisa? Fique com seu leitinho quentinho e confortável. Seguramente ele nunca irá acabar porque sempre haverá uma boa alma salvadora para te ajudar a se manter pobre e miserável, por toda a eternidade. Continue sendo a vítima da sociedade. Fazer diferente dá trabalho e trabalhar cansa, né?

A lua existe independente do meu olhar sobre ela. Assim é a Realidade também. Existe. Goste voce ou não. Acredite voce ou não. Queira voce ou não. Ela É.

A solidão da lua é inenarrável. A minha também. Falta interlocução. Falta amizade. Falta confiança. Falta credibilidade. E o mais bonito é que nem eu e nem ela precisamos das coisas que faltam para continuarmos  nossa inevitável trajetória.

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