No primeiro dia da primavera, tomei meu café da manhã com um pãozinho de alecrim delicioso que assei ontem á noite. Desta vez fiz também “una schiacciata” com azeite italiano, sal grosso e alecrim, nome científico, Rosmarinus Officinalis.
Eu amo este “pão” que vem com cristais de sal em cima. Na região da Toscana, é muito popular, e eu adorava comer isto enquanto caminhava em Firenze.
Se eu puder escolher entre comer um doce ou um salgado, prefiro o salgado. Amo o amargo também. O azedo? Só se for com sal, no caso do iogurte. Ou com açúcar, no caso do maracujá.
Se come tão bem na Itália! Cheguei lá aos 18 anos pesando 78 quilos e saí aos 21 anos pesando 58 quilos. Detalhe: comendo exatamente do jeito local. Em todas as refeições tinha um macarrão ou um arroz ( risoto), uma carne, uma verdura cozida, uma salada, pão, vinho, queijos e frutas de sobremesa, um digestivo ( alcoólico) e um café.
A gente cozinhava em casa e se fui em algum restaurante foi porque meu empregador me convidou. A vantagem de ser pobre é que a gente come em casa e nossa comida é bem mais saudável que a do restaurante. Mas não pense que nos restaurantes a gente come menos que isto que listei acima.
Meu empregador era um artista incrível, Agostino Dessí, nascido na Sardenha, tinha uma loja de máscaras de carnaval no centro de Firenze e ensinava aos estrangeiros interessados a trabalhar. A gente trabalha para ele por hora, no mercado negro, porque era proibido empregar estrangeiros nos anos 80.
Como eu arrumei este emprego? Eu conheci o sócio dele na Galeria degli Uffizzi, um retratista talentoso, Gabriele, e ia vê-lo trabalhar diariamente. Ele ficava feliz em me ver, e me abraçava, falando em alto e bom tom, o meu nome para todo mundo ouvir. Não existe o nome de Marília em italiano, então eu sabia do esforço que ele fazia para pronunciar meu nome. Ele que me apresentou ao Agostino.
Mais tarde este artista plástico se apaixonou por mim, mas a recíproca não foi verdadeira, infelizmente. Penso que se eu tivesse ficado com o Gabriele, eu teria me poupado de muito aborrecimento. Mas quando se é jovem, parece que a burrice impera, a gente não pensa em dinheiro, a gente não pensa em conforto, a gente não pensa em construção de futuro.
Pensa um cara atencioso e delicado comigo, o que eu pedisse, ele fazia, super apaixonado, lindo, alegre, cheiroso, artista, careta, e trabalhador.
E por que você não ficou com ele e se casou com ele? Porque eu já tinha ficado por 2 anos com um cara que não sabia transar, no Brasil. Não queria ter mais um namorado que era maravilhoso fora da cama, mas um péssimo parceiro sexual. Principalmente porque eu tinha tido uma rápido namoro de 4 meses com meu ex professor de filosofia, antes de viajar, com o melhor sexo do mundo.
Talvez com o professor fosse tão bom, porque a gente se conhecia há 2 anos e ele me bajulava com elogios, e eu, bem burra, acreditava. A gente tinha química, ele ficava de mãos dadas comigo, e eu me arrepiava inteira. Com ele, eu sonhava em me casar e ter filhos, mas ele escolheu outra parceira, não fui eu a contemplada.
O namorado de 2 anos, não me elogiava, mas a gente se divertia cozinhando juntos e ele costurava minha fantasia de carnaval, e me levava para os bailes da cidade do interior de São Paulo, onde nos conhecemos. Com ele caminhei pela av Paulista e pelo centro histórico de madrugada e frequentei as baladas mais animadas em São Paulo.
Até os meus 21 anos eu não me incomodava com os hábitos das pessoas e suas preferências por drogas. Devo dizer também, que sempre fui preservada. Nunca ninguém me levou junto para os seus encontros com a cocaína. Eu sou agradecida até hoje por isto.
O Gabriele me elogiava também, mas eu não acreditava, achava que era papo furado de italiano. Ninguém sabe, mais do que os italianos, a xavecar uma mulher. Ô povo para falar o que a gente gosta de ouvir. Eles são gentis e carinhosos. Até você se casar, porque depois viram uns monstros e têm a péssima fama de meter a mão nas esposas. Não vejo o Gabriele batendo em uma mulher. Mas também não paguei para ver, né?
Tô aqui pensando o que nos move nesta ou naquela direção?
Será que eu sou movida a tesão? Sou movida á química sexual? Aí me apaixono por um cara com uma excelente química sexual, em Veneza, encantada, como nos filmes românticos, sendo carregada no colo, e segurando um maço de flores nas mãos, um homem, conversador, cheiroso e lindo, que me levou para jantar e comer um delicioso macarrão com frutos do mar, num restaurante bem chic de cidade.
Um erro de percurso que me custou muito caro.
Se eu soubesse o preço que iria pagar por este encontro apaixonado, eu jamais teria deixado acontecer. Mas a gente não sabe o que virá depois de um encontro.
Uma pessoa que vai para um país estrangeiro com bilhete apenas de ida, é porque nunca mais voltaria a morar no seu país de origem. Você tem idéia do tamanho da auto-decepção quando eu tive que voltar para morar no Brasil?
E quando eu fiquei sem conseguir trabalhar por um ano e meio, sem conseguir falar direito, sem conseguir ganhar meu dinheiro? Gente eu não conseguia mais escrever e chorava diariamente por isto, pedindo a Deus que me tirasse tudo, menos a capacidade de ler e de escrever. Voce tem idéia do tamanho do sofrimento de que estou falando? E sem conseguir voltar a subir num palco e me apresentar, por mais 29 anos você tem noção da minha auto-decepção?
Você consegue imaginar como eu me senti quando a Marina Abromović me olhou e me viu? Naquele ano de 2015, me pedindo para eu apresentar uma performance para ela, no Sesc Pompéia?
Eu tive que dormir no hostel com mais 7 pessoas no quarto, em São Paulo, porque morava no Guarujá, e precisava me apresentar no dia seguinte e minha mãe, irmã e sobrinha não suportavam minha presença na casa delas. Se negaram a me receber. Nem liguei, eu estava tão feliz pelo convite. Eu tinha conseguido chamar a atenção da maior artista de performance do mundo, e estava bem orgulhosa de mim. Detalhe: Meu útero sangrava, a hemorragia era intensa.
No dia seguinte passei nas lojas Mel, ao lado do metrô Ana Rosa, e comprei tudo o que precisava para fazer um pão ao vivo.
Fiz um pão de Amor. Cantando com um público de 100 pessoas, e encantando quem conseguiu se encantar, que é o que eu sei fazer. Você acredita que a hemorragia cessou, após a apresentação? Nem eu.
Hoje comi meu pão de Amor. Sem hemorragia, sem sexo, sem paixão e cheio de histórias escritas por mim. Delicioso como sempre!
